O refluxo gastroesofágico ocorre quando há volta do conteúdo do estômago para o esôfago. Pode ocorrer de esse liquido ou comida que volta ir até a boca ou se exteriorizar como vômito ou regurgitação
Há entre o esôfago e o estômago um tipo de músculo, chamado esfíncter, que deve regular essa volta dos conteúdos do estômago para cima. Então, esse esfíncter, que deve permanecer fechado a maior parte do tempo, abre, após a deglutição, para a passagem dos alimentos. Eventualmente ele se abre, independente das deglutições, e deixa passar conteúdo do estômago que volta para o esôfago.
Como no estômago existe o ácido clorídrico, necessário para a digestão dos alimentos, o que volta, então, pode ser ácido. Esse ácido não deve permanecer normalmente no esôfago. Se isso acontecer ele pode ocasionar lesões no esôfago (chamada esofagite) ou nos outros órgãos que ficam acima do estômago e que não contêm ácido.
Todas as pessoas, adultos e crianças, apresentam um pouco de refluxo em certos momentos do dia, principalmente após as refeições (2 horas após). São períodos curtos, considerados normais, em que há volta de conteúdo do estômago para o esôfago. Esse refluxo é chamado FISIOLÓGICO ou normal.
Os bebês recém-nascidos ou as crianças no primeiro ano de vida comem muito mais frequentemente do que os adultos (no início até de 1 em 1 ou 2 em 2 horas), por isso têm normalmente, muito mais episódios de refluxo. Eles estão quase sempre no período “após a refeição”, pois comem muito mais frequentemente. Além disso, nas crianças pequenas, os mecanismos de proteção contra essa presença do ácido no esôfago estão ainda imaturos, fazendo com que o refluxo seja um fenômeno muito mais comum.
Portanto, é normal ter refluxo gastroesofágico, principalmente no primeiro ano de vida. É normal vomitar e regurgitar nos primeiros meses de vida, desde que a criança ganhe peso adequadamente e que não tenha sintomas, tipo dor ou azia. Esses bebês são chamados “vomitadores felizes”, pois vomitam ou regurgitam e estão sempre bem, sem sintomas e crescendo normalmente.
A volta dos conteúdos do estômago para o esôfago (refluxo) pode ficar somente no esôfago, pode ir até a garganta ou pode sair pela boca, configurando o vômito ou a regurgitação.
Por isso, os bebês vomitam e regurgitam com tanta frequência no primeiro ano de vida. Quanto menores eles são, menos desenvolvidos estão os mecanismos de defesa e mais imaturo está o esfíncter esofágico, fazendo com que nessa idade os episódios de refluxo sejam bem mais frequentes.
Então, duas coisas são importantes em relação ao refluxo fisiológico:
1. Refluxo fisiológico NÃO necessita exames e nem tratamento medicamentoso e
2. O tempo é o principal aliado do refluxo, pois o amadurecimento da criança vai fazer o refluxo ir desaparecendo.
Quando o refluxo se torna doença?
O refluxo se torna doença quando ele provoca sintomas ou algum prejuízo para o bebê. Por exemplo, perda ou não ganho de peso, choro, irritabilidade, recusa alimentar, anemia, vômitos com sangue, podem ser sintomas de refluxo-doença.
O refluxo se torna doença quando começa a atrapalhar o crescimento e o desenvolvimento normal da criança ou quando piora a qualidade de vida do lactente. Quando, ao invés de ser um bebê normal, ele se transforma em uma criança irritada, chorona, que não dorme bem, magrinha, que não come, aí é considerado doença do refluxo. Isso acontece porque o ácido que volta do estômago está vencendo os mecanismos de defesa e está fazendo mal para o esôfago ou está lesando alguma estrutura e desencadeando sintomas.
A presença do ácido no esôfago por muito tempo pode ocasionar azia ou dor, pode causar inflamação do esôfago, chamada esofagite. Pode também ocasionar sintomas à distância, como infecções respiratórias de repetição. Se o bebê aspira aquele conteúdo ácido que voltou até a garganta, ele pode ter uma pneumonia de aspiração. Se o ácido fica muito tempo no esôfago, a criança pode vomitar com sangue ou ter muita azia, que a impede de comer, pela esofagite.
O refluxo-doença, ou a doença do refluxo gastroesofágico, ao contrário do refluxo fisiológico, necessita tratamento e, às vezes, exames diagnósticos.
Quais são os exames para diagnosticar Doença do Refluxo Gastroesofágico?
– Raio X contrastado do esôfago, estômago e duodeno (REED), que mostra se há alguma outra alteração associada, como por exemplo, causa de obstrução à passagem do alimento, hérnia de hiato, malformação, etc.
O fato de aparecer refluxo neste exame não diferencia refluxo fisiológico de refluxo-doença.
– Ultrassonografia ou ecografia abdominal – este exame como o anterior, não diferencia refluxo fisiológico de refluxo-doença. É um exame que só é útil quando o médico pensa que pode haver outra alteração que se chama estenose hipertrófica do piloro, que dá um quadro bem mais grave de vômitos e não-ganho de peso. A ecografia não serve para fazer diagnóstico de refluxo-doença.
– Endoscopia digestiva – esse é um exame mais invasivo, feito sob anestesia, que mostra se há esofagite ou não.
– pHmetria esofágica – exame feito através da colocação de uma sonda pelo nariz, que deve ficar pelo menos durante 18 horas no paciente. Também é um exame mais invasivo e mostra os picos de acidez no esôfago, que a criança apresenta durante o período do estudo.
– cintilografia – exame realizado principalmente quando se suspeita que possa haver aspiração pulmonar do conteúdo do estômago que volta.
Qual é o Tratamento da Doença do Refluxo Gastroesofágico?
O tratamento da Doença do Refluxo é feito com medicações antiácidas. Os antiácidos mais utilizados são a ranitidina e os inibidores de bomba de prótons, como o omeprazol. Não existe essa medicação em forma líquida, sendo muito difícil administrar em bebês.
As crianças que necessitam omeprazol, em geral, são crianças que têm outras doenças e, por isso, um refluxo mais grave.
Existem também medicações que melhoram a motilidade como a domperidona, mas que dá intensa agitação antes dos 6 meses e por isso não deve ser utilizada. Essa medicação só deve ser dada para crianças que vomitam demasiadamente, a ponto de não ganhar peso.
Os bebês que apresentam refluxo fisiológico não devem receber nenhum tratamento, só melhorar a posição, fracionar as comidas e medidas gerais.
Poucas crianças necessitam de cirurgia do Refluxo, nos casos mais graves e complicados.
