Alergia à Proteína do leite de vaca (APLV)
O que é a alergia ao leite de vaca?
Alergia às proteínas do leite de vaca é um tipo de reação que ocorre quando a criança entra em contato com essas proteínas. É uma reação imunológica, reprodutível (ou seja, se repete cada vez que ocorre), em que as nossas células reconhecem essas proteínas como estranhas e reagem contra elas.
As alergias alimentares ocorrem, na grande maioria das vezes, contra proteínas da dieta e são mediadas por reações imunológicas.
Alergia à proteína do leite é a mesma coisa que intolerância à lactose?
Não. São duas coisas bem diferentes. O maior erro que se vê por aí é dizer que a criança tem “alergia à lactose” – isso não existe!
A lactose é o açúcar do leite e não causa alergia. Tem muita lactose no leite materno e nenhuma criança se torna intolerante ao leite materno. A intolerância à lactose é um fenômeno de pessoas mais velhas, em geral, adultos. É a falta de uma enzima, chamada lactase, que ocorre nos adultos.
Como somos mamíferos, nascemos com muita lactase e só vamos desenvolver a intolerância bem mais tarde na vida, quando vamos perdendo essa enzima. As crianças só tem intolerância à lactose quando, por uma lesão intestinal extensa, perdem essa enzima. Isso ocorre nos casos de doenças, como as gastroenterites graves, por exemplo. Mas, isso não é comum.
Já a alergia é um fenômeno diferente, em que há formação de anticorpos. As células de nossa defesa (linfócitos, por exemplo) têm memória e cada vez que a proteína alergênica entra em nosso corpo, elas se “lembram” e atacam essa proteína, formando anticorpos contra ela. Isso é uma reação imunológica, bem diferente da que ocorre na intolerância à lactose.
Pode haver também a alergia imediata, que é mediada pela imunoglobulina E, que é um anticorpo. Esse tipo de reação é aquela que ocorre os primeiros minutos (até 2 horas) após a ingestão e pode levar ao choque anafilático.
Então, alergia é mais comum no primeiro ano de vida e é contra a proteína, sendo um fenômeno imunológico, com anticorpos. A intolerância é contra o açúcar do leite (lactose), ocorre por falta de uma enzima, principalmente nos adultos. São dois fenômenos diferentes, que ocorrem em idades distintas e contra moléculas diferentes.
É comum a criança ter alergia à proteína do leite?
As alergias aumentaram muito no mundo atual. A asma, as rinites, a dermatite atópica e as alergias alimentares estão cada vez mais comuns.
Entre as alergias alimentares, a alergia à proteína do leite de vaca é a mais comum, pois a proteína do leite de vaca é uma das primeiras proteínas que o bebê entra em contato na vida. Além disso, as alergias alimentares ocorrem com maior frequência no primeiro ano de vida, pois o intestino do bebê, ainda imaturo, não se protege adequadamente contra a presença de proteínas “estranhas” (não humanas).
Existem dois tipos de alergia: a alergia imediata, que ocorre nas primeiras duas horas após o contato, e a alergia tardia, que dá mais sintomas intestinais e que pode ocorrer até 72 horas após o contato com a proteína desencadeadora. A alergia imediata é mais frequentemente constatada pelos alergistas e a tardia, mais pelo gastropediatra.
Qual é o tratamento para a alergia ao leite de vaca?
O tratamento da APLV é a exclusão do leite de vaca da dieta até que o intestino da criança se recupere e amadureça para poder se defender contra a entrada de proteínas estranhas. Então, a boa notícia é que, na maioria das vezes, a APLV é transitória e o bebê vai poder voltar a tomar leite ou comer coisas com leite de vaca, depois de uns meses com dieta de exclusão.
Para as crianças alérgicas à proteína do leite de vaca e que mamam no seio materno, está indicado que a mãe faça a dieta sem leite de vaca e/ou derivados, e o bebê deve seguir mamando no peito. Não suspender a amamentação é muito importante.
A dieta é bastante difícil e na maioria das vezes as mães precisam de acompanhamento da nutricionista.
Para os bebês pequenos ou para as crianças maiores que não mamam mais no peito materno, o indicado é utilizar as fórmulas especiais para alergia, que se chamam fórmulas de hidrolisados proteicos ou fórmulas de aminoácidos.
É mais comum que isso aconteça se o leite for materno ou de vaca?
É mais comum com leite de vaca, ou seja, é mais frequente nas crianças que tomam fórmulas e não leite materno. O leite materno parece proteger contra as alergias e, principalmente, contra as alergias mais graves.
Entretanto, é importante saber que a proteína do leite de vaca passa através do leite materno e, por isso, crianças que são amamentadas também podem ter alergia à proteína do leite de vaca. O que nunca acontece é alergia ao leite materno.
Pode-se usar leite de vaca integral no primeiro ano de vida?
Não. O leite de vaca, integral, não deve ser usado no primeiro ano de vida, pois não é adequado para bebês por ter excesso de algumas substâncias como, por exemplo, gordura e proteína. É um dos maiores fatores de risco para obesidade infantil, pois tem muitas proteínas. E também causa mais alergias, pois há sobrecarga de proteínas.
No primeiro ano de vida, deve-se usar somente fórmulas específicas para bebês. Para as crianças abaixo de 6 meses, fórmulas I, de primeiro semestre. E para as crianças de mais de 6 meses, usar fórmulas II, ou seja, para o segundo semestre de vida.
As fórmulas hoje em dia são excelentes e feitas para serem o mais semelhante possível ao leite materno. Existem várias fórmulas que podem ser utilizadas.
O leite de soja pode ser usado como leite substituto? Quais suas vantagens?
As fórmulas de soja não são as mais indicadas nos primeiros seis meses de vida, pois nessa idade, o bebê ingere grande quantidade de leite, como alimentação exclusiva e a soja não tem nenhuma vantagem sobre as fórmulas de leite de vaca.
O mais indicado para as crianças que não mamam no seio é utilizar as fórmulas especiais para alergia, que se chamam fórmulas hidrolisadas ou fórmulas de aminoácidos.
Além disso, como a soja também é uma proteína não humana, pode causar alergia e isso não é infrequente.
A soja, então, é mais indicada para as alergias imediatas (aquelas que são mais graves e acontecem nas primeiras 2 horas após entrar em contato com a substância alergênica) ou depois dos 6 meses de vida.
Como identificar se o filho tem alergia à proteína do leite? Quais sintomas ele pode apresentar?
Os sintomas principais são sangue nas fezes, dor e choro importantes, cólicas, diarreia, constipação, outras alergias, tipo dermatite atópica e alergias de pele no bebê nos primeiros meses de vida. A criança que apresenta vômitos e/ou diarreia logo após tomar sua primeira mamadeira ou que apresenta lesões de pele também pode ter alergia alimentar imediata.
Quais testes podem ser feitos pelo médico para ver se a criança tem esse problema?
Para essas alergias tardias, que dão sintomas gastrointestinais, não existem exames laboratoriais. O diagnóstico é clínico, ou seja, se retira a proteína do leite da dieta e se observa se o bebê melhora. Depois de 2 a 4 semanas, coloca-se o leite na dieta (da mãe ou do bebê) e verifica-se se os sintomas retornam, ou não.
No caso das alergias imediatas – aquelas que se apresentam nas primeiras duas horas, após consumir o leite (ou a proteína que causa alergia) e que se apresentam como manchas na pele, vômitos e diarreia imediatos, há exames de sangue que podem ajudar, mas também não são 100% seguros. Esses exames “ajudam” no diagnóstico, mas sozinhos também não são confiáveis. É necessário haver clínica, ou seja, sintomas que melhoram com a retirada e pioram com a reintrodução.
Os exames de sangue (IgEs) ou os Prick testes (testes de pele), auxiliam no diagnóstico das alergias imediatas, mas não são suficientes para estabelecer definitivamente o diagnóstico.
Esses exames só “ajudam” nas alergias imediatas, aquelas que podem causar choque anafilático e não auxiliam nas alergias tardias.
Como evitar o problema?
Na verdade, o maior fator de prevenção é o aleitamento materno.
Parece que outro fator importante é não dar fórmulas de leite de vaca na maternidade. Deve-se dar, para aquelas crianças que são grupo de risco (que têm pais ou irmãos alérgicos) fórmulas hidrolisadas na maternidade, quando nasce o bebê.
Muitas crianças precisam receber um pouco de fórmula quando nascem, por que fazem hipoglicemia ou por outros motivos. Nesses casos, deve-se dar fórmula hidrolisada, se essas crianças forem do grupo de risco (que têm pais ou irmãos alérgicos). Pode-se também dar fórmulas HA (hipoalergênicas).
A mulher que está amamentando precisa ter quais cuidados com a alimentação?
Só se o filho for alérgico. Os estudos não demonstram benefício em tirar leite das mães que os filhos não têm alergias ou que não têm sintomas, para prevenir.
Outro problema é que existem muitos credos populares, de que a mãe que amamenta não pode comer muitas coisas. Na verdade, o que não pode é a proteína causadora da alergia, se o bebê é alérgico. As mães devem ter muito cuidado, evitando excluir muitos itens da alimentação e incorrendo, dessa forma, em uma dieta inadequada. A mulher que amamenta precisa comer adequadamente. Isso é muito importante para a boa amamentação.
Existe tratamento para o problema?
Sim. O tratamento é a retirada da proteína que causa alergia da dieta. Com isso, o bebê tem tempo de amadurecer seu intestino e ficar tolerante. Ou seja, a alergia alimentar é, na maioria das vezes, temporária, vai passar com o tempo de amadurecimento da criança. Em geral, quase todas as crianças vão ficar tolerantes, ou seja, vão poder tomar leite com o passar do tempo. O tratamento – retirada da proteína agressora – é importante para o intestino poder se recuperar e ficar tolerante.
Se não tratarmos e a criança permanecer sangrando, por exemplo, essa criança pode ficar com mais alergias e piorar cada vez mais.
E solução? Com o tempo, o sistema imunológico da criança desenvolve tolerância à proteína do leite?
Exatamente, com o tempo o sistema imunológico da criança desenvolve tolerância à proteína do leite ou à proteína que causa alergia. Com a exclusão da proteína agressora da dieta, o intestino se recupera e se fortalece, para poder enfrentar essa proteína posteriormente.
Uma mãe que tem filho com alergia à proteína do leite tem maiores chances de ter outro com o mesmo problema ou não há relação?
Sim. O maior “fator de risco”, como nós chamamos, é ter irmão, ou o pai, ou a mãe alérgicos. Se ambos forem alérgicos, a probabilidade é ainda maior. Esses bebês que têm familiares de primeiro grau alérgicos são os que vão ter maior risco de ter alergia também.
Dra Cristina Targa Ferreira
Gastroenterologista, Hepatologista e Endoscopista Pediátrica
Chefe do Serviço de Gastro Pediatria do HCSA
Prof Adjunta de Gastro Pediatria da UFCSPA
Presidente do Dpto de Gastro Ped da Sociedade Brasileira de Pediatria
Presidente da SPRS
